TEXTOS
Outros - Hans Georg Flinkinger
O sujeito desaparecido na teoria marxiana

 

Hans Georg Flinkinger

"Marx na universidade". Esta palavra de ordem sinalizou as reivindicações do movimento estudantil que agitou as universidades alemãs há quinze anos, refletindo sobre a missão político-social da formação universitária. O fato de que a indicação de uma aula sobre a teoria de Karl Marx naquele tempo tinha sido sacrificada pela própria censura dos órgãos políticos da universidade tornou-se incompreensível em nossos dias l. Pelo contrário, depois da preocupação intensa com a teoria marxista na última década, o interesse naquela parece diminuir rapidamente. Acho que sobretudo duas razões motivaram este processo. Em primeiro lugar, a crítica da economia política foi aceita como teoria científica, tendo perdido assim seu potencial crítico em respeito ao desenvolvimento real das sociedades cunhadas pelo capitalismo tardio, tornando-se apenas uma base possível, entre outras, para a compreensão científica da realidade social2. Além disso, a teoria marxista, ela própria, contém traços objetivistas, dedicando-se à análise das estruturas materiais e econômicas, o que provoca o desaparecimento do sujeito humano — fato este que levou a teoria a assemelhar-se aos dogmas dominantes da ciência objetivista moderna, com apoio unicamente na visão positivista. Neste caso, a teoria marxista se estaria movendo na vizinhança da falsidade do positivismo científico, reduzindo seu interesse ernancipatório ao mero esclarecimento teórico da realidade. Como pôde esta perversão surgir na tradição da teoria marxista? Por que esta teoria, tão ambiciosa, perdeu seu potencial político, deixando-se incluir no pluralismo das teorias científicas? Achando que a teoria de Marx em si mesma não foi inocente deste processo ou ao menos deste perigo, não quero dizer que tivesse refletido de modo insuficiente sobre a emancipação humana. Pelo contrário, provarei que a história de sua recepção assim como a constituição teórica da crítica da economia política dão razões significativas para o desaparecimento e a destematização dos sujeitos humanos, chamando a ao mesmo tempo, ao que desapareceu Explicarei a seguir as razões fundamentadoras dessa tese paradoxal em dois passos Na primeira parte da argumentação, examinarei o desenvolvimento da teoria de Marx, que se lê como processo do abandono do discurso sobre o sujeito humano; na segunda parte, localizarei o destino dos sujeitos e da perspetiva emancipatória, dados pelas razões imanentes a teoria. Finalmente incluirei alguns pontos característicos de uma subjetividade humana enquanto não mais dominada pela alienação vigente nas nossas sociedades capitalistass tirando assim uma perspetiva produtiva da argumentação anterior.

I

Em primeiro lugar, quero preocupar-me com a lógica do próprio desenvolvimento da teoria de Marx, que mostra uma tensão metodológica impressionante na elaboração de sua perspetiva crítica. Já no início do livro O Capital se percebe um radicalismo metodológico, que pode ser exemplificado pela primeira frase: "A riqueza das sociedades dominantes pela forma capitalista de produção aparece como acumulação imensa de mercadorias, a mercadoria particular como sua forma elementar., Por isso, a nossa investigação começa com a análise da mercadoria" 3. Nesta primeira frase do esboço mais elaborado da crítica do capital encontra-se uma referência importantíssima em respeito à lógica da. apresentação crítica do capital, quer dizer, das relações sociais deformadas pelo capital. Aqui, Marx afirma que a análise da constituição do capital tem de ser iniciada pelas suas formas aparentes. Segundo ele, só deste modo é possível uma análise do ponto de vista do capital como sujeito do poder real. Por causa disso, o livro tem o título O Capital. A primeira surpresa que nos ocorre aqui, é o uso do conceito de ‘aparência’. O uso deste conceito recorda-nos sua função lógica no segundo livro da Ciência da Lógica de Hegel4: representa na verdade o não-essencial necessário na estrutura do pensamento objetivo. A análise do capital começa então com o não-essencial, com o aparente. Mais ainda: o não essencial, representado na mercadoria enquanto forma elementar do capital, é o mais simples. Tal início revela uma contradição lógica: como é que se analisa o elementar, o mais simples. Não é o elementar um fato a ser tomado como imediato, tal como é? Se esta suspeita revelar-se correta Marx terá começado sua análise com dois convites contraditórios: tomemos o não-essencial como ponto de partida e analisemos o elementar. Seguindo estes convites, a análise do capital e de sua estrutura constitucional, descobrirá o processo no qual se esclarecerão as próprias contradições ha constituição do poder do capital. Fazer uma análise do ponto de vista do capital é deparar com suas estruturas contraditórias ocultas por trás da aparência deformada das relações sociais.

Neste programa formulado na fase inicial do livro O Capital impõe-se um problema metodológico. Se Marx tiver razão dizendo que a análise do capital tem de penetrar tanto nas suas estruturas imanentes quanto na sua aparência, nenhuma medida conceptual, fora daquelas do capital, poderá levar adiante a análise. A própria apresentação da forma da reprodução do capital explicaria e elaboraria os conceitos adequados, que pudessem expor a análise como crítica. Sinaliza-se aqui uma predeterminação em respeito ao nosso tema: a apresentação crítica do capital deve recorrer unicamente aos conceitos teóricos que reconstroern o capital como estrutura econômica. Esta necessidade metodológica é responsável pela exposição do sujeito humano nas suas deformações econômicas, mantendo assim a radical idade metodológica da apresentação do capital através de sua constituição imanente. Formulando de modo paradoxal dizíamos: quanto mais estritamente a análise do capital tiver de ligar-se às determinações econômicas, tanto mais se terá de chamar a atenção e de descobrir o que não se compreende com estas determinações. A partir de seu trabalho nos anos quarenta, Marx lutou por uma teoria capaz de realizar e de cumprir esta expectativa. Afirmando esta tese, recuso todas as interpretações que desligam a obra da primeira fase daquela da última. (Refiro-me por exemplo aos trabalhos de Althusser/Balibar, A. Gianotti e A. Schmidt5). Pois, pelo contrário, a exposição da crítica da economia política é caracterizada pela busca de uma teoria que consiga a unidade de apresentação e de crítica, ou seja, de crítica através de um certo modo de apresentação. Em busca do sujeito humano, a construção metódica da análise de Marx força-nos a atermo-nos aos fatos sociais desaparecidos, porque não denomináveis nos conceitos e nas determinações econômicas do capital. Por outro lado, este método de apresentação é capaz de fundamentar o poder dos sujeitos humanos de rebelarem-se contra sua repressão, por serem excluídos enquanto momentos constitutivos e essenciais do capital. Eles não podem ser tematizados através das determinações econômicas, embora sejam momentos subversivos diante do domínio do capital. A expectativa revolucionária de Marx tem sua raiz nesta constituição6.

Não poderei explicar em pormenores o desenvolvimento ou a evolução da teoria de Marx, mas, indicando algumas estações no seu caminho, darei uma idéia de minha interpretação deste ponto metodologicamente provocado. A partir da dissertação (1840/41) sobre a "Diferença da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro em geral" até 1846/47, à época da elaboração da Miséria da Filosofia7 encontram-se dois fios principais no trabalho de Marx. O primeiro reflete a capacidade da teoria filosófica de compreender a realidade social; conduz da dissertação, inteiramente filosófica, à Miséria da Filosofia, que desmente o conhecimento afirmativo da realidade social, já que seus conceitos supunham a realidade como dada. Na medida em que levou adiante a crítica da filosofia contemporânea, isto é, em primeiro lugar, da filosofia hegeliana enquanto filosofia de totalidade, Marx deslocou seu interesse em favor do segundo fio principal, em favor da análise da realidade social sob as condições do capitalismo. Este interesse desembocou na importância das interpretações dos acontecimentos políticos atuais para a evolução da teoria crítica frente a uma política, que teve de ser analisada com respeito a suas estruturas constitutivas encobertas pela fraseologia política. A intersecção destes fios principais dá conta do fato referido nos "Manuscritos de Paris" sob o título Manuscritos económico .filosóficos8. Contêm estes o primeiro ensaio significativo de Marx ao analisar a realidade econômica através das determinações filosóficas e ao criticá-la com respeito às rei ações sociais, que ficam por trás das determinações econômicas. Darei apenas três exemplos. No manuscrito sobre o rendimento, na passagem central, se diz: "É necessário que esta aparência seja revogada, que os bens de raiz, a base da propriedade, sejam observados no movimento da propriedade, do capital, subtraído de toda coloração política..."9. O manuscrito sobre "O trabalho alienado" leva adiante a análise do processo de alienação econômica com os meios conceptuais da determinação lógica 10; e no tratado sobre "A relação da propriedade" o título já indica a tensão entre o conceito lógico (a relação) e o fato econômico (a propriedade). Em todos estes ensaios trata-se da tentativa de esclarecer a realidade social e a economia capitalista com as determinações filosóficas. Há neles, porém, um fato óbvio. As tentativas de reconstruir os fenômenos econômicos nas determinações conceptuais ainda não são concludentes e bem-sucedidas. São demasiado claras as dificuldades de manter um uso estrito dos conceitos centrais da análise. Por exemplo, o conceito de alienação ou o discurso sobre a coisificação das relações sociais, são marcados pelas ambivalências de sentido ou, ainda pior, pelo uso da mesma palavra de modo contraditório. Devido a estas dificuldades, Marx não pôde evitar o uso afirmativo das determinações não fundamentáveis no seu contexto conceptual. O falar sobre a necessidade da "aquisição da vida humana como supressão positiva da alienação" 11, ou da "vida produtiva enquanto vida genérica" 12, ou da "atividade vital consciente, distinguindo o homem do animal"13, encobrem mais do que esclarecem, por tratar-se de pressupostos apenas afirmativos sobre as feições essenciais da existência humana. Em vista deste defeito, o discurso sobre o humanismo marxista — que, na literatura marxista, baseou-se nos Manuscritos de Partir e o qual foi oposto à crítica meramente econômica da última fase do trabalho de Marx parece-me sinalizar uma insensatez. Marx – esta é a minha tese — teve enormes dificuldades na elaboração de uma crítica imanente do capitalismo, que pudesse fundamentar-se na própria forma de apresentação teórica, ou seja, os sujeitos humanos apenas conjuráveis nos Manuscritos de Paris não puderam ser tematizados de modo fundante, como os meios conceptuais da crítica da economia foram incapazes de sua fundamentação enquanto fato social. Por isso, Marx continuou a buscar uma teoria construtiva que unificasse a forma de apresentação e a crítica de seu objeto. Como esta teoria só pôde ser apresentada destematizando o ser humano, Marx teve de aceitá-lo devido a uma argumentação também convincente do ponto de vista metodológico. Questionando: como é possível que os conceitos filosóficos não só reproduzam a superfície da realidade social, mas façam-na também compreensível com respeito a suas estruturas essenciais, enquanto historicamente ultrapassadas e deformadas?

Em busca de uma teoria que o ajudasse a resolver seu problema metodológico, Marx preocupou-se de novo de modo intenso com a filosofia Hegeliana. Não mais prisioneiro do pensamento dos jovens hegelianos, quis descobrir e manter na sua própria teoria o "caroço" racional desta filosofia hegeliana, sobretudo da filosofia do direito e da lógica dialética. A sua situação tornou-se ambígua: por um lado, aceitou a crítica de Feuerbach contra Hegel, na qual argumentava contra a capacidade teórica da filosofia idealista de compreender a realidade social, supondo-a dirigida pela lógica do conceito14 por outro lado, pensou contra Feuerbach, que Hegel tinha compreendido a totalidade da sociedade burguesa e também de maneira metódica e coerente15. Esta ambigüidade voltou na tese de que temos de rebelar-nos contra o domínio do conceito filosófico afirmativo, reclamado pela lógica hegeliana, já que neste a história é petrificada na aparência das estruturas sociais; do mesmo modo, a filosofia hegeliana conseguiu explicar a realidade burguesa devido exatamente a esta sua reconstrução, que abstraiu da substância social. A rebelião contra o domínio do conceito — este foi o raciocínio de Marx — necessitava a rebelião contra o estágio da sociedade burguesa-capitalista. Assim, a perspetiva se esclareceu. Não foi possível renunciar à teoria hegeliana enquanto meio de reconstrução; não obstante, a necessidade de descobrir a sua essência material precisou da elaboração das condições de sua referência objetiva. O último raciocínio foi o que mais atraiu Marx sendo também o mais forte para nosso contexto: "O positivo realizado por Hegel — em sua lógica especulativa — é o fato de que os conceitos determinados, as formas gerais e rígidas do pensamento em sua autonomia contra a natureza e contra o espírito, são o resultado obrigatório da alienação geral do ser humano e portanto também do pensamento humano, e resumiu como momentos do processo da abstração"16. Levando isto a sério, tornou-se decisivo para Marx saber como a lógica hegeliana da análise do direito burguês fora construída. Meteu-se então no trabalho, encontrando na sua pesquisa informações metodológicas surpreendentes com respeito à apresentação crítica do capital: (1) a lógica hegeliana formulou as condições teóricas a serem cumpridas para tornar possível o conhecimento da racionalidade imanente das relações sociais; (2) a teoria de Hegel, de tipo construtivo no sentido cartesiano, gerou pressupostos imediatos para que fossem fundamentados como necessários na argumentação; (3) os meios que levaram adiante a lógica do pensamento racional, produziram, através de sua própria reconstrução, as categorias necessárias para a análise da lógica do conceito pressuposto. Devido a estas descobertas metodológicas, a teoria hegeliana tornou-se fundamental para a crítica marxiana. A capacidade mais atraente da teoria hegeliana para os fins da análise de Marx mostrou-se na reformulação do aparecer imediato da realidade através da lógica do conceito filosófico. Devido a isso, Marx decidiu seguir as determinações encontradas na teoria hegeliana.

Entretanto, o recurso à lógica dialética de seu pai intelectual provocou um novo problema: poderia a lógica do conceito hegeliano apresentar o modelo para a crítica das relações capitalistas sem reproduzir o domínio do pensamento abstrato, isto é, sem parar na mera descrição da superfície da sociedade burguesa? A resposta a esta questão tornou-se a preocupação chave de Marx nas obras que seguiram os trabalhos da primeira fase. Pode-se entendê-las enquanto reformulações do método da crítica como método de apresentação da constituição essencial do capital. E este processo da reformulação da dialética hegeliana que, além do aprofundamento do conhecimento sobre os fatos econômicos, tem importância para nós quando perguntamos pelo destino dos sujeitos humanos na teoria de Marx. É válido sobretudo em respeito aos Grundrisse da crítica da economia política — de 1859 — e, ao fim, no livro O Capital refletindo-se neste desenvolvimento teórico uma diferença fundamental entre ambos os ensaios — ainda que Marx não explicitamente tivesse consciência deste fato. Os Grundrisse contêm, como o disse Marx, "a crítica das categorias econômicas ou, if you like, o sistema da economia política apresentado criticamente. E ao mesmo tempo a apresentação do sistema é a crítica do sistema pela sua apresentação..." 17. A pretensão teórica dos Grundrisse não se cumpriu devido à incapacidade de Marx de ultrapassar a hermética do sistema hegeliano, reconstruindo aqui a análise e a crítica do capital de modo análogo à lógica dialética de Hegel. Os Grundrisse apresentam-se assim enquanto teoria construtiva do ponto de vista lógico, produzindo por isto efeito estranho18. Neles, Marx já argumentou do ponto de vista estritamente econômico, mantendo o capital enquanto conceito dominador, cuja constituição deveu ser descoberta através de análise imanente, embora não conseguisse explicar as relações econômicas como resultado da constituição histórica da sociedade capitalista. Na minha opinião, os Grundrisse só puderam explicar o capital segundo a lógica de seu conceito sem que fossem capazes de argumentar historicamente. Por isso, o desaparecimento do sujeito humano não pôde ser entendido como a história de sua deformação capitalista (a discussão entre um "materialismo histórico" e um "materialismo dialético" deveria dar-se conta deste fato). Em contrapartida, no livro O Capital. Karl Marx conseguiu apresentar as estruturas constitutivas do capital tanto em nível sistemático quanto histórico. Posso apenas indicar a tese de que o livro O Capital está mais baseado na dialética fenomenológica de Hegel, um resultado no qual se reflete a insuficiência de um construtivismo teórico aplicado de modo imediato à realidade social. O importante para nós é o progresso significativo entre os Grundrisse e O Capital, ligado a esta mudança no uso da dialética, Os Grundrisse mostraram o que é logicamente reprimido pelo capital através de sua constituição econômica construída; O Capital revela o fato de que o reprimido, ou seja, o trabalho humano, também tem de ser reconstruído através da constituição histórica do capital enquanto processo de repressão, para fundamentar o desenvolvimento histórico da sociedade burguesa. Foi neste caminho que chegou a uma teoria crítica do capitalismo, tematizando a força latente do reprimido e unificando assim a forma de apresentação do capital com sua crítica. Crítica esta que resultou da lógica dialética da apresentação, quer dizer, da tematização do não-tematizável. Como se pode entender esta última fórmula?

II

Os sujeitos humanos não aparecem mais nas últimas reformulações da constituição lógica do capital, embora sejam afirmadas aí as condições constitutivas deste. Em que estruturas foram se encobrir, deixando de lado a possibilidade de que Marx os tivesse esquecido, como único motor da emancipação humana? A resposta nos irá revelar também o sentido em que se poderá falar da dialética marxiana.

A crítica da economia política trata da constituição lógica e histórica do capital, como parece ser de conhecimento comum, Nesta tese exprimem-se duas experiências: a prova da dependência real do capital em relação ao que o produz, ou seja, do trabalho humano, e o fato contraditório segundo o qual o capital tenta impor-se como totalidade real e poder dominante em nossas sociedades. Ambas as determinações só poderão ser subsumidas sob a análise lógica do capital, se os sujeitos humanos, se o trabalho humano, forem transformados e reduzidos às determinações econômicas e se o capital conseguir exterminar todos os traços da autonomia e da subjetividade do homem. Já mostrei que, pelas razões sistemáticas e pelo pressuposto metódico, a análise do capital de Marx teve de supor o domínio do capital para reconstruir suas relações internas de modo conceptual. Neste caminho reformulam-se e apresentam-se as relações sociais apenas nas deformações do capital, quer dizer, pelos conceitos da economia política. A visão da sociedade tornou-se para Marx uma visão exclusivamente econômica. Em conseqüência disso, a análise transformou todos os momentos da subjetividade humana ou, o que é a mesma coisa, reprimiu os momentos da subjetividade autônoma que escapam de serem reformulados nas categorias da economia capitalista. O reprimido pelas razões sistemáticas da análise é o excluído da nossa sociedade através da constituição histórica do poder do capitalismo.

Dissemos que a análise do capital limita-se a demonstrar a prova de seu poder e que nesta análise os momentos, as feições do ser humano, só são tematizáveis enquanto determináveis pelos conceitos econômicos. Neste contexto proponho voltar ao discurso do que se chama "dialética". - Para mim não faz sentido discutir aqui as explicações e definições especulativas desta palavra. Parece-me muito mais importante dirigir a atenção à estrutura argumentativa e à força de compreensão, fundamentadas numa reconstrução dialética de tipo marxiano. No caso da análise do capital, o procedimento da argumentação indica a pretensão imperial do capital. Neste procedimento, todos os momentos do mesmo capital, todas suas condições constitutivas, inclusive o sujeito humano, que não se deixaram transformar nas determinações econômicas, desaparecem enquanto necessariamente destematizados. Simultaneamente, a crítica da economia política pretende pôr este sujeito humano no centro de sua argumentação política e no centro de sua perspetiva emancipatória. Assim, no meu entender, a dialética apresenta uma estrutura argumentativa necessariamente paradoxal: tematiza o não- tematizável. Os interesses emancipatórios se mantêm devido à incapacidade do capital em incluir o humano, já que o capital só se adscreve as formas ou, melhor, as deformações coisificadas da vida social. A análise do valor da mercadoria e do duplo caráter de trabalho encoberto neste, provaram este fato 19. A crítica de Marx insiste na revalorização da subjetividade humana, mostrando que esta não tem nenhum lugar positivo na análise da sociedade capitalista fora de sua deformação coisificante. Este o sentido da ligação de Marx à dialética hegeliana, segundo a qual a rebelião contra o domínio do conceito abstrato — do capital dominante no caso de Marx — inclui a rebelião contra o estágio de desenvolvimento da sociedade capitalista.

Apliquemos este resultado à própria história da teoria marxiana. Se falarmos de uma ruptura entre os trabalhos da primeira fase e aqueles da última, não se verá os problemas metodologicamente fundamentados em respeito à tematização ou não-tematização do sujeito humano. Na medida em que cresceu sua crítica da sociedade enquanto dominada pelo capital, percebeu a impossibilidade de falar do sujeito humano dentro destas estruturas, não tendo o ser humano um lugar na determinação das relações coisificadas pelo domínio do capital. Ora, se esta opinião for convincente, as pretensões humanas e emancipatórias poderão ser preservadas unicamente pela destematização sistematicamente necessária. Só a reconstrução da argumentação marxiana revela este paradoxo.

III

Como já indicado no início, proponho-me buscar os traços do sujeito humano sob as condições não alienantes, baseando-me nas razões de seu desaparecimento nas estruturas sociais capitalistas. Antes disso, porém, tenho que assinalar um possível mal-entendido. Não se trata e não podemos contentar-nos com a possibilidade de pensar nos sujeitos emancipados enquanto negação direta nas feições deformadas por e reduzidas ás determinações capitalistas. Fazendo isto, só substituíramos uma totalidade — isto é o capital — pela outra, encontrada na sua negação imediata. Na verdade, temos de reagir a e de contar com os argumentos fundantes da teoria marxiana de modo que se evite recair nos erros criticados, já que a crítica apresentou-se como aquela das pretensões totalitárias. Não se deve apenas reproduzir a mesma objetivação e superficialidade da descrição que acabei de expor, como objetivo principal da crítica de Marx. Não se trata apenas da troca do conteúdo e das definições do conceito da subjetividade. Deveria tratar-se de sua determinação qualitativamente diferente, dos processos não prefigurados de modo totalitário e das perspetivas abertas na realização do ser autônomo. Tomando a crítica da realidade capitalista a sério, temos de buscar o sujeito humano além de um pensamento totalitário, quer dizer, além de um esboço da sociedade aprisionado numa idéia fixa e predeterminada do homem, que a radicalidade da crítica marxiana provoca.

O meu primeiro raciocínio diz respeito ao fato da deformação do trabalho humano pela sua coisificação no trabalho assalariado20. A análise da mercadoria no livro O Capital expõe o fato de que a reprodução capitalista obrigatoriamente leva a deformar e igualar o trabalho humano à produção apenas material das mercadorias. Que significará a inversão deste processo na base da idéia do sujeito não-alienado? Uma resposta terá de contar com o trabalho assalariado como deformação específica do trabalho na produção capitalista, implicando a dupla redução da reprodução do homem. Esta ficará limitada unicamente em relação aos fins da produção material, deixando de lado o trabalho enquanto reprodução do homem como ser autônomo. Além disso, a forma pela qual o trabalho tem de esquecer a subjetividade do homem, transforma-o em objeto do processo de reprodução material, alienado de seu próprio produto. Ao menos estas características — a redução à produção meramente material e a perda da autonomia do sujeito — sinalizam a perspetiva do sujeito emancipado e encoberto na crítica marxiana. Nem esgotar-se na produção material nem subordinar-se às necessidades de uma racionalidade coisificadora — estes os fins que têm de encontrar-se num trabalho livre enquanto forma de reprodução autônoma do homem. O que Marx chamou "a produção livre do homem" incluiu a utopia da reprodução material tal como social e cultural em qualquer nível. Torna-se evidente que mesmo a apropriaçao do homem na produção refere-se tanto ao produto quanto ao modo da produção como processo aberto. Ouvindo bem os próprios conceitos econômicos da crítica marxiana, revelam-se-nos as determinações abertas do sujeito com respeito à sua realização no trabalho. O significado do conceito das "relações de produção", enquanto indicação das relações sociais deformadas, visa a necessidade de trocar a perspetiva como tal: as "relações de apropriação" deveriam substituir21 a vista fechada na produção material, relocalizando assim o homem no seu lugar enquanto dono da reprodução inteira. Darei apenas dois exemplos com respeito às formas necessárias da apropriação através do trabalho, suspendendo o direito da racionalidade institucionalizada de transformar as necessidades do homem naquelas das coisas. Primeiro exemplo: refiro-me às estruturas curriculares do sistema de educação, onde o domínio da racionalidade capitalista se impõe através da capacidade profissional enquanto fim da formação. Liga-se em primeira linha à disponibilidade do trabalho, tornando-se indiferente com respeito a seu conteúdo e reprimindo, deste modo, o processo de apropriação autônomo da própria capacidade essencial do indivíduo em nome de uma revalorização do valor de troca do trabalho22. Segundo exemplo: a racionalidade objetivadora nas ciências modernas, especialmente na sociologia e na medicina, através dos processos de preparação de seus objetos. Destematiza através desta determinação as alternativas do acesso intelectual à realidade. Enquanto apropriação de um ambiente alheio, só representa uma forma de conhecimento; por que não reconhecer o significado dos mitos, rebelando-se assim não só contra a racionalidade repressora sobre a natureza externa, mas também sobre a natureza interna do homem? Acho que poderíamos apreender deles muito sobre as fraquezas de nosso acesso destrutivo à realidade social e sobre o medo encoberto neste gesto dominador. Parecem-me incluir momentos mais produtivos do que aqueles que o "divide et impera" cartesiano produziu. A perspetiva do sujeito autônomo, como se vê nestes exemplos, implica necessariamente a rebelião contra as visões social-tecnológicas da sociedade24.

Esta rebelião, provocada pela crítica marxiana, liga-se a uma segunda consideração. Refere-se às formas institucionais de perceber o homem de modo restrito. Aparentemente são preformadas pelas perspetivas que já coisificaram os indivíduos e suas relações sociais em duplo nível. No nível econômico, a coisificação é explicitamente reconstruída na análise do trabalho feita por Marx. Mais ainda, encontra-se este problema de coisificação a nível social e científico como conseqüência da realização dos interesses da reprodução, que se manifestam através das categorias científicas aplicadas na análise social. Olhemos por exemplo para os grupos marginalizados: são eliminados através da categorização científica do normal e do não-normal como o doente, a loucura, os jovens, na medida em que não são portadores de funções necessárias para a reprodução material da sociedade. As instituições psiquiátricas, a cultura jovem de protesto, as pessoas de idade tornam-se exemplos para tais formas de exclusão social, devido à sua improdutividade material e à capacidade de ameaçar a racionalidade apenas material do capitalismo, No nível teórico, Michel Foucault fundou o processo histórico da exclusão e do esquecer social do sujeito autônomo. Chamando a atenção às precondições econômicas das formas nas quais as instituições sociais percebem e categorializam os indivíduos, já se anuncia aí um potencial subcultural no sentido de ficar tanto fora das normas da cultura dominante como formas da produção das relações sociais, quanto representando valores sociais reprimidos nesta sociedade pela sua "normalidade cultural’ 25. Este potencial vem de se concretizar na produção de uma nova sensibilidade social contra as predeterminações estruturais das normas em função. O movimento ecológico, o feminismo, as comunidades agrárias dão a prova deste desenvolvimento muito diferenciado em si mesmo. O fascinante da teoria marxiana com respeito a estas perspetivas foi o de ter revelado as condições e as formas de repressão do sujeito humano na sociedade capitalista, e, como conseqüência, ter indicado a necessidade de rebelar-se contra as visões profissionais reproduzidas pelas instituições para a subordinação do homem sob os fins da formação econômica. Apresenta-se na teoria marxiana uma argumentação "via negationis". Em vez de fazer do homem objeto, em vez de coisificá-lo e predeterminá-lo, sua análise reabriu as formas fechadas da percepção do homem pelas instituições e pela ciência moderna. Tal perspetiva pode ser formulada como exortação, independente do auto-entendimento explícito de Marx: tornemo-nos mais sensíveis às expressões e manifestações do sujeito humano fora da visão prefigurada pela necessidade de sua revalorização econômica, quer dizer, aceitemos a variedade das formas de sua apropriação tanto como a necessidade de substituir a visão institucional deste, enquanto determinado pelo mito da racionalidade.

Vimos, na base da análise marxiana, que o trabalho assalariado tal como as formas institucionalizadas de percepção do indivíduo, são deformações funcionais dos sujeitos para a reprodução da sociedade burguesa. Tomados juntos, ambos visam aos acessos profissionais, tornando o indivíduo, enquanto sujeito, um objeto divisível a ser tratado de modo positivista, ou seja, no intuito de aperfeiçoar o domínio das instituições sociais e científicas sobre este. Assim, os indivíduos divididos têm de entregar-se aos aparatos normativos para não verem ameaçada sua integração social. O que Michel Foucault reconstruiu no caso do desenvolvimento da prisão como instituição total26, o que Deleuze/Guattari pretenderam no caso da opressão da produção do desejo27 ou o que a medicina moderna faz do corpo físico e psíquico, indicam o mesmo fato: indicam o mecanismo de automatização do homem pela visão profissional no seu isolamento através das categorias profissionais. Este processo culmina, por exemplo, nos registros de estatística, cujo conceito expõe o ponto de vista estático do objeto que quer descrever e analisar. Devido a isto, produziu-se uma tendência para questionar a profissionalização da vida cotidiana; já se percebeu como problema nas ciências mais avançadas. Nas palavras de Marx, tratar-se-ia das perspetivas necessárias de reconquista da vida humana "como supressão positiva da alienação". Deste modo poder-se-ia reforçar a consciência de estar havendo a repressão do homem pelos aparatos institucionais. A subjetividade reprimida, da qual Marx fez brilhante análise, inclui o medo do inesperado, o medo da produção do desejo e o medo das utopias concretas28, que poder-se-iam dirigir contra a racionalidade dominante, ou, mais ainda, contra a irracionalidade do poder brotada das instituições.

Chego à última conseqüência de minha perspetiva baseada na crítica marxiana. A análise de Marx confirmou a totalidade do capital, pagando, por causa metodológica, o preço de não mais poder tematizar o sujeito humano. Sem dúvida, conseguiu explicar a dependência constitutiva do capital enquanto totalidade pretendida, relevando o trabalho humano como condição essencial deste. Deste modo, a pretensão do capital mostrou-se logicamente inviável. Através desta reconstrução, a função afirmativa do conceito da totalidade ficou em questão. Estritamente interpretado, tornou-se um conceito lógico para indicar a falsidade das pretensões ao poder. Sem exagerar, isto significa também a necessidade de refletir sobre a subjetividade humana, tradicionalmente entendida na discussão filosófica como base autônoma de nossa compreensão?29. Visando à subjetividade humana enquanto não mais deformada pela transformação econômica, devemos renunciar a sua imagem totalitária encontrada na ideologia burguesa. A idéia do sujeito não-alienado tem de dar-se conta deste fato. Seria uma nova tarefa o desenhar esta perspetiva, quer dizer, seria um outro tema. Neste momento, apenas quero enfatizar o fato de que a análise de Marx, dirigindo a atenção ao sujeito deformado na coisificação que lhe foi imposta pelo capitalismo, impede o falar de uma totalidade introduzida de modo afirmativo e da reconstrução da idéia do sujeito onipotente. Pelo contrário, tal idéia deve ser entendida como base apenas ideológica de nossa sociedade.
 
 

NOTAS
 
 

1 – Ainda em 1967, na universidade de Heidelberg/Alemanha, foram cancelados os cursos na sociologia, politologia e filosofia, que se refiriam no título à teoria marxiana.

2 – Nas diferentes disciplinas surgiram interpretações "materialistas" em concorrência com aquelas tradicionais, p.e. "Zur Begründung einer materialistischen Sozialisationstheorie" (Para a fundamentação de uma teoria materialista de socialização) de A. Lorenzer, Frankfurt 1972.

3 – Refiro-me à edição de Berlim 1968, conhecida como M(arx)E(ngels)W(erke) Vol. 23.

4 – A análise da essência na lógica de Hegel precisou de um conceito de aparência logicamente elaborado. Compare G. Figal /H. G. Flickinger: Die Aufhebung des schoenen Scheins (A suspensão do aparecer belo), em: Hegel-Studien 1979.

5 – Compare Althusser/Balibar: Lire le capital, Paris 1965; A. Gianotti: Os origens da dialética do trabalho, São Paulo 1966; A. Schmidt: Der Begriff der Natur in der Lehre von K. Marx (O conceito da natureza na doutrina de Marx), Frankfurt 1971.

6 – Compare M. Theunissen: Krise der Macbt (Crise do poder), em: Hegel-Jahrbuch 1974.

7 – Em português compare São Paulo 1982.

8 – Este título indica perfeitamente o problema referido. Compare anotação 99 dos editores da MEW, vol. supl. 1, Berlim 1968.

9 – Idem, pág. 506.

10 – Idem, pág. 5 10-522.

11 – Idem, pág. 523-529.

12 – Idem, pág. 522.

13 – Idem,pág. 516.

14 – Idem.

15 – Compare: Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung (Para a crítica da filosofia hegeliana do direito. Introdução) MEW vol. 1, pág. 378, Berlim 1974.

16 – Idem, pág. 384.

17 – Assim a caracterização de sua tarefa na carta para Lasalle de 22.2.58.

18 – Marx foi preso na tradição metodológica cartesiana do "mos geometricus’’.

19 – A análise da mercadoria, MEW vol. 23, entende-se enquanto reconstrução da deformação econômica das relações sociais.

20 – Esta a descoberta de Marx na análise da mercadoria sob o aspecto do duplo caráter do trabalho.

21 – Compare A. Wildt em: Theorien des historischen Materialismus (Teorias do materialismo histórico), de A. Honneth/Urs Jaeggi, Frankfurt 1980.

22 – Encontra-se esta tese no trabalho de U. K. Preuss: Bildung und Herrschaft (Educação e domínio), Frankfurt 1973.

23 – Refiro-me ao contexto de Feyerabend, fundamentado nos próprios argumentos de Popper; compare "Contra o Método", Rio de Janeiro 1977.

24 – Compare a posição de N. Luhmann e sua teoria de sistema.

25 – Compare R. Schwendter: Theorie der Subkultur (Teoria da subcultura), Frankfurt 1977.

26 – Compare entre outros: M. Foucault: Vigiar e Punir, Petrópolis 1977.

27 – Compare Deleuze/Guattari: Anti-Edipe, Paris.

28 – Compare em respeito a este conceito E. Bloch: Prinzip Hoffnung (Princípio de Esperança), Frankfurt 1959.

29 – A tradição do pensamento europeu desde Descartes e Spinoza ainda não abandonou a fundamentação do conhecimento na capacidade do indivíduo. Mesmo o materialismo americano não renuncia a esta idéia. Compare as contribuições em V. Borst: The mind/brain Identity Theory (A teoria de identidade mente/cérebro), Londres 1970.
 
 

Filosofia Política, no. 1, outono de 1984.

Porto Alegre: L&PM Editores.
 

Contato:
antivalor@bol.com.br