TEXTOS Krisis |
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crise do sistema mundial e o novo vazio conceitual |
Introdução do livro Weltoednungskrieg Robert Kurz Na parca medida em que, num tempo em que o sistema em vigor já parece dispensar qualquer tipo de legitimação, ainda vai havendo quem pense de um modo reflexivo, esse mesmo pensamento releva de um caráter estranhamente anacrônico. Tal não só se aplica ao respectivo conteúdo como igualmente às categorias em que esse conteúdo se apresenta. Da mesma forma como existem crescentemente novos e gritantes contrastes sociais, os quais, no entanto, já não são passíveis de serem explicados com o recurso a modelos sociológicos claros e inequívocos ou a conceitos de classe, da mesma forma podem ser observados novos conflitos econômicos, conflitos culturais e guerras de escala global que já não podem ser descritos com os conceitos tradicionais das políticas econômica, interna e externa. Embora o assim chamado debate da globalização conduzido desde o início dos anos noventa (a coincidir aproximadamente com o colapso da União Soviética) se aperceba de uma série de fenômenos novos, estes continuam a ser passados pelo vetusto crivo categorial, visto não se encontrar à disposição nenhum outro sistema de referência conceptual. Assim constata-se, por um lado, uma perda de significância da política e um desvanecimento da soberania dos estados, se bem que se teime, por outro, em exprimir essas manifestações empíricas recorrendo aos conceitos tradicionais da política e das relações entre estados. Com isso encontra-se relacionado o fato de qualquer orientação, na medida em que esta ainda é, sequer, intentada, ser voltada quase irremediavelmente para o passado, nomeadamente enquanto esperança de, e busca de concepções para alguma "recuperação da dimensão política"; e é justamente por isso que a forma de ver o novo se revela fenomenologicamente limitada, enquanto a indumentária conceptual permanece a de sempre, sendo defendida com unhas e dentes. Isso mesmo manifesta-se, não em último lugar, ao nível das relações internacionais ou entre estados quando, de um modo tão fanfarrão quanto desajustado, se fala de uma "política interna mundial". Esta frase feita, especialmente em voga e papagueada até à exaustão em círculos verdes e sociais-democratas, comprova da forma mais imediata que tudo isto não passa de uma projeção de velhos conceitos burgueses sobre o pano de fundo de um desenvolvimento tão novo quanto incompreendido. Aqui impõe-se o paralelismo com o debate sobre a crise da sociedade do trabalho. Também a este respeito realça-se continuamente a novidade das manifestações, ao passo que a categoria do trabalho propriamente dita, enquanto apriorismo tácito, permanece literalmente tabu e todas as concepções ou até receitas milagrosas acabam por conduzir à preservação dessa mesma categoria sob uma forma qualquer e quase que a qualquer preço. A analogia dos modos de proceder remete para a conexão intrínseca entre ambos estes complexos: a crise do trabalho mundial e a crise da política mundial representam apenas aspectos diferentes do mesmo processo social em curso à escala mundial. Enquanto se encontrava na ordem do dia a guerra fria como conflito sistêmico entre duas manifestações ou fases de desenvolvimento diferentes do moderno sistema produtor de mercadorias, ela sobrepunha-se a um problema mais basilar que deste modo passou despercebido. Sob a epiderme da guerra fria foi-se constituindo uma estrutura de crise com ramificações operantes à escala global que, com o esboroamento do capitalismo de estado, veio à luz sem aviso prévio mas que, sobre o pano de fundo da história do pós-guerra, apenas pôde ser percepcionada sob uma forma ideologicamente distorcida. O que parecia ser a "vitória" do capitalismo ocidental foi-se revelando, ao longo dos anos noventa, como uma derrocada socio-econômica irreversível, desde já, de extensas partes da periferia do mercado mundial. No centro deste processo de crise encontra-se o derretimento da substância real (produtora de valor real) do trabalho capitalista por obra da terceira revolução industrial, a crescente "incapacidade de exploração" do capital devida aos seus próprios padrões tecnológicos de produtividade e, com isso, a dessubstancialização do dinheiro (o desacoplamento dos mercados financeiros da economia real). Esta lógica interior da crise, contudo, não se repercute apenas sob a forma de uma ruptura estrutural ao nível das relações mundiais de mercado (globalização do capital), mas igualmente como ruptura estrutural ao nível do sistema político mundial (fim da soberania e do direito internacional). Sob este aspecto, aquilo que é apregoado, sob o rótulo da globalização, como uma mudança à escala mundial positiva e detentora de um grande potencial para o futuro há muito que pode ser decifrado como o processo de desagregação do modo de produção e de vida prevalecente, o qual se bifurca num capitalismo minoritário global em vias de rarefação, por um lado, e os seus produtos de barbarização, por outro. Neste contexto, a contradição estrutural imanente à relação de capital entre o estado e o mercado, ou entre a política e a economia, não pode ser sustentada por mais tempo, tanto ao nível dos estados nacionais como ao nível do sistema mundial. O que, em termos de política interna, se manifesta como o processo de erosão da soberania do estado, manifesta-se em termos de política externa sob a forma da degradação das relações internacionais. A ambos estes níveis vai-se tornando difícil a resolução da contradição. Embora os estados nacionais continuem a existir enquanto invólucros formais e enquanto aparelhos (que atuam, no âmbito da administração de crise, de um modo crescentemente repressivo), eles encontram-se destituídos das suas bases coerentes em termos econômicos. Os capitais transnacionais e os respectivos mercados, ao invés, embora consigam estender-se para além do sistema de referência nacional e internacional tradicional, destruem por isso mesmo cada vez mais as suas próprias condições de enquadramento. Assim surgem novas e incontroláveis formas de transição em que culminam as irremediáveis contradições intrínsecas do capital mundial. Não é apenas uma preguiça mental generalizada que impede o desenvolvimento de uma nova conceitualidade que corresponda aos fenômenos novos. É que, no que diz respeito aos conceitos em causa, que são a economia nacional, o estado nacional, a política nacional interna e externa ou uma daí decorrente política nacional de interesses e de "influência" (imperialismo), não se trata de expressões de uma determinada fase evolutiva transitória mas, à semelhança do conceito do trabalho, de categorias fundamentais do próprio sistema social moderno em todas as suas variações. Os novos fenômenos são fenômenos de crise de um tipo inédito, uma vez que já não conduzem a um estado evolutivo superior da socialização burguesa, mediada através da produção de mercadorias, constituindo antes a crise categorial específica desta última. Por tudo isso o desenvolvimento também já não pode ser determinado desde o ponto de vista da ordem mundial vigente, podendo sê-lo unicamente sob o ponto de vista da respectiva autodestruição. Para ser mais exato: já não existe qualquer "desenvolvimento" positivo e sustentável sobre este fundamento social. Isso significa que a análise tem de levar em consideração, juntamente com a degradação das relações sociais subjacentes, também o desmoronamento dos conceitos por que esta ordem se faz representar. E, sob este ponto de vista, não são obsoletos apenas os conceitos do sistema mundial econômico, mas igualmente os conceitos do sistema mundial político. Os devastadores ataques terroristas contra os EUA do 11 de Setembro de 2001 tornaram claro, literalmente num abrir e fechar de olhos, o que já muito antes se conseguia adivinhar: a interligação social à escala mundial, não conseguida por intermédio de acordos conscientes e da autodeterminação humana, mas através das cegas leis da concorrência e dos mercados financeiros não só produz novos tipos de crises estruturais, mas igualmente novos potenciais subjetivos de ódio e destrutividade em que se manifesta a decomposição da "subjetividade política" burguesa. Do sono da razão nascem monstros, sendo que a "mão invisível" de um economicismo totalitário desenfreado faz das suas com tão pouco dó e piedade como a outra "mão invisível", a de uma cega raiva "pós-ideológica" e "pós-política", cujo balbuciar pseudo-religioso involuntariamente comprova que qualquer legitimação racionalista da assim chamada "modernização" se esgotou definitivamente. A ratio da sociedade mundial, baseada na valorização infinita enquanto movimento espontâneo do capital monetário, é, ela própria, esse sono da razão. No entanto, esta racionalidade moderna de um fim-em-si irracional degenerada em "pragmatismo", ou seja, já não capaz de uma reflexão e auto-reflexão crítica, não pode nem quer ver os seus limites e, assim, limita-se a prosseguir obstinadamente no "business as usual", tentando definir os seus próprios demônios como um "problema de segurança" exterior e exógeno. A imparável desagregação da economia é suposto ser detida com meios econômicos, ao passo que se pretende travar a igualmente imparável desagregação da política com meios políticos. Os senhores mundiais do capital já não compreendem o seu próprio mundo. Para se poder chegar a compreender o que parece incompreensível é necessário adotar, bem contrariamente à ideologia pragmática das elites funcionais em exercício que, hoje, em boa verdade, já apenas executam a pretensão totalitária da economia sobre o mundo, uma posição muito pouco em voga de distância e crítica radical. Somente a partir desta posição é que se torna possível reconhecer como tais os processos de decomposição e de autodestruição do sistema mundial, analisar todas estas correlações na respectiva dimensão histórica e, ao mesmo tempo, documentá-las como o limite da dinâmica capitalista que atualmente se nos defronta. Tradução de Lumir Nahodil
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