São
Paulo, 16 de Fevereiro de 1997. Folha de São Paulo
Modelo econômico adotado pela Coréia do Sul demonstra sinais de falência
Robert
Kurz
Em
outubro de 1996, um sonho parecia tornar-se realidade: a República da Coréia do
Sul, como segundo país asiático depois do Japão, foi integrada à Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE) e, em consequência, ao clube exclusivo
dos predominantes Estados industriais do mundo. Em geral, tomou-se tal fato como
prova da ascensão irrefreável do sudeste asiático na hierarquia do mercado mundial.
Com o ingresso da Coréia do Sul, escreveram muitos comentadores, abriu-se definitivamente
a porta aos "tigres" asiáticos, e a OCDE no século 21 será dominada
pela Ásia. Menos de seis meses mais tarde, o verniz do modelo bem-sucedido há
pouco festejado já começava a descascar: a Coréia do Sul amargou em janeiro de
1997 as maiores greves e abalos sociais de sua história. À primeira vista, poderia
parecer que o movimento grevista era somente uma consequência natural do sucesso
sul-coreano nos mercados mundiais. Os operários nos países-tigres, diz-se hoje,
querem simplesmente reivindicar a sua fatia no enorme bolo. Precisamente porque
a Coréia do Sul "teve êxito" e alcançou os Estados industriais do Ocidente,
agora chega ao fim a própria lenda das "sóbrias e industriosas abelhas asiáticas".
Os padrões ocidentais de consumo teriam pretensamente o acesso facilitado,
e o nível de vida da população, em conformidade ao status atingido no mercado
mundial, seria ajustado para cima. Também o regime autoritário do país e das empresas
não seria mais oportuno. A OCDE já dirigia críticas à proibição francamente arcaica
de sindicatos livres na Coréia do Sul e exigia a "normalização" das
relações jurídicas para permitir "debates civilizados" entre empresas
e sindicatos. O governo da Coréia do Sul teria de manter a promessa feita quando
de seu ingresso na OCDE e garantir a liberdade de associação sindical e de acordos
salariais, como é de bom-tom a um membro digno da OCDE.
Esse enfoque
da situação presente na Coréia do Sul, no entanto, é apenas meia verdade. O movimento
grevista não é uma reação atrasada dos trabalhadores ao sucesso, porém justamente
o inverso: é uma reação antecipada ao malogro da incipiente industrialização voltada
às exportações. Na verdade, os padrões de consumo na Coréia do Sul há muito se
elevaram. O nível salarial fora já nos anos 80 alçado de patamar, e, a partir
de 1990, os salários aumentaram em mais de 10% ao ano, mesmo sem greves nem manifestações.
Os protestos raivosos que surpreenderam o mundo não são ofensivos, mas defensivos.
Eles se dirigem contra a revogação de conquistas sociais, que devem ser imoladas
no altar da globalização. Pois o modelo dos Estados-tigres já alcança os seus
limites, e as greves são o prenúncio da crise.
Em 1996, os ganhos das
firmas sul-coreanas caíram em 50%, pois, a despeito do aumento qualitativo (embora
com taxas de crescimento mais baixas), o saldo das exportações encolheu em termos
absolutos. O déficit da balança comercial explodiu a quase US$ 30 bilhões. Para
um país como a Coréia do Sul, isso é uma catástrofe. O governo e as grandes empresas
dizem resolver o problema com cortes nos encargos sociais. Eis por que foi quebrada
a promessa à OCDE de uma normalização democrática e sociopolítica. As novas leis
trabalhistas do presidente Kim Young Sam e seu governo não apenas mantêm de pé
a proibição de sindicatos livres erguida pela ditadura como também possibilitam
aos empresários uma alteração unilateral das jornadas de trabalho, uma redução
dos salários e sobretudo, pela primeira vez, as demissões em massa. Desse modo,
também na Coréia do Sul a tão celebrada "família empresarial" paternalista
torna-se sinônimo de bobagem.
É compreensível que os trabalhadores sul-coreanos
reajam com raiva e desespero a essa mudança drástica. Ainda há pouco eles se mostravam
orgulhosos de que o mundo lhes admirasse o país e depositavam confiança no governo,
que lhes prometia a longo termo o crescente bem-estar. Ora, já nos anos passados
a ascensão econômica pagara o preço da devastação ecológica, com o ar empestado,
rios poluídos e florestas desmatadas. Os habitantes da capital, Seul, se acostumaram
a viajar nos finais de semana às montanhas, munidos de galões, porque só ali ainda
se encontra água potável. Mas, mesmo assim, as pessoas deixaram-se seduzir pela
perspectiva de que a cultura da pobreza e o seu cortejo de bicicletas e carros
de boi logo faria parte do passado. Vários operários dos quadros de elite de empresas
sul-coreanas voltadas ao mercado mundial puderam pela primeira vez comprar carros,
geladeiras e televisores _coisa que permanecia um objetivo longínquo para o restante
da população. E agora o milagre há de ter fim sem nem sequer ter começado? A irritação
do povo e a simpatia pelos grevistas é tão grande que até mesmo monges e freiras
budistas tomam parte nas manifestações.
Os anseios dos manifestantes
estão longe de pôr em questão o modo de vida capitalista. Eles não querem mais
que o cumprimento da promessa de normalidade democrática, empregos na economia
de mercado, motorização geral e bem-estar poe meio de uma torrente de bens de
consumo industriais. Porém com isso eles rumam a um beco histórico sem saída,
pois agora revela-se que os modelos asiáticos de desenvolvimento não podem imitar
os Estados industriais do Ocidente e muito menos suplantá-los. Os novatos asiáticos
não assumem o lugar de Estados Unidos e Europa como locomotiva do mercado mundial,
mas somente despencam na mesma crise após um brevíssimo vôo estratosférico. Alguns
teóricos do desenvolvimento industrial compararam precipitadamente nos últimos
anos a ascensão da Coréia do Sul e demais países-tigres com a industrialização
européia no século 19.
Ora, essa comparação é falsa. A estrutura industrial
dos países europeus não somente estava centrada nas nações, como também tinha
diante de si um horizonte temporal de desenvolvimento de mais de 150 anos. A industrialização
da Coréia do Sul, por sua vez, ergueu-se desde o início sobre pés de barro, porque
ela já constava como parte integrante da globalização a um nível elevado de desenvolvimento
do mercado mundial. As manobras estatais, na esteira do modelo japonês, podiam
num primeiro momento simular um desenvolvimento econômico nacional por meio das
indústrias de exportação, mas uma tal alternativa agora é inundada mais rápido
do que o esperado pela torrente da globalização. Como a moldura do planejamento
estatal obedecia ao projeto da industrialização voltada às exportações, a conjuntura
favoreceu unilateralmente as grandes empresas norteadas pelo mercado mundial,
como Daewoo, Goldstar, Samsung, Hyundai etc. Estas "chaebol", como são
chamadas as empresas mistas chefiadas por clãs familiares na Coréia do Sul, não
tinham desde o início qualquer interesse numa estrutura interna equilibrada da
economia sul-coreana. Tanto os militares quanto os chefes das empresas conheciam
apenas um objetivo: ter sucesso o mais rápido possível no mercado mundial. Eis
por que eles apostaram todas as fichas numa única vantagem, a saber, salários
baixos e condições miseráveis de trabalho.
Todas as tentativas de organização
sindical foram rechaçadas com meios brutais. Porém um tal estratagema só funcionou
enquanto a exportação se restringiu a produtos da indústria leve (tecidos, calçados
etc.). Com a transição para a indústria pesada (siderurgia, construção naval)
e de alta tecnologia (indústria eletrônica, automobilística), as fraquezas desse
modelo, após longo período de incubação, tinham de saltar à luz, o que ocorre
hoje sob a ameaça de uma ruína iminente. Embora o governo sul-coreano e as "chaebol"
tenham concebido formalmente seus planos a longo prazo, sua orientação estratégica
estava na verdade programada somente para sucessos a curto prazo e uma maciça
expansão quantitativa. A diferença qualitativa entre produtos de massa mais baratos
e produtos high-tech não foi levada em conta. Este erro de avaliação sedimentou-se
numa política míope de crescimento, cujos êxitos já eram parte do passado e agora
transformavam-se numa reação econômica em cadeia, desta vez com sinal negativo.
As "chaebol" concentraram-se em poucos ramos, a fim de repetir nas indústrias
de alta tecnologia, por meio das exportações mais baratas, o modelo da ofensiva
de exportação das indústrias leves. Elas descuidaram da construção de um espectro
amplo de indústrias e se tornaram dependentes de relativamente poucos produtos.
A fim de cortar gastos e avançar rapidamente nos mercados mundiais com grandes
volumes de produtos, renunciou-se nos ramos escolhidos ao controle da escala produtiva
em sua totalidade. Dessa forma, mesmo em seus supostos ramos de sucesso, a Coréia
do Sul sempre foi dependente da importação de tecnologia japonesa e ocidental.
A orientação a curto prazo e puramente quantitativa deu ensejo a uma constante
expansão produtiva sem o suficiente aumento da produtividade. O grande aporte
de capital foi acompanhado de um aporte igualmente elevado de força de trabalho,
sem que a intensidade do capital crescesse em sua essência. Como num sistema pré-moldado,
uma fábrica seguia-se à outra, em linha; havia excesso de investimento na expansão
e escassez de investimento na racionalização. A Coréia do Sul teria portanto de
concorrer também nas indústrias de alta tecnologia _contra os antigos países industriais_
quase exclusivamente com salários defasados e anacrônicos e com respaldo na taxa
de câmbio. Para não onerar a surtida quantitativa das exportações, o Estado descuidou
da construção da infra-estrutura. Comparado ao aumento do volume de sua exportação,
a Coréia do Sul tem hoje pouquíssimas ruas, além de aeroportos, portos, ferrovias,
redes de comunicação etc. pessimamente ampliados. O próprio sistema escolar e
universitário e as instituições de formação técnica ficaram bastante para trás.
Simultanemente, o governo em boa parte largou mão de um desenvolvimento da agricultura:
a Coréia do Sul tornou-se dependente da importação de alimentos. Não admira que
essa ofensiva de fôlego curto logo tivesse de estacar no mercado mundial. Se nos
anos 80, nas asas da "economia-vodu" de Ronald Reagan e do câmbio extremamente
alto do dólar a ela vinculado, a Coréia do Sul pôde ainda encobrir suas debilidades
internas com o fluxo de exportação rumo aos Estados Unidos, nos anos 90 o modelo
do crescimento puramente quantitativo não se mostrava mais sustentável. Com base
na estratégia primitiva dos contínuos investimentos na expansão, logo a força
de trabalho tornou-se escassa e, em virtude do relativo descuido do sistema profissionalizante,
a força de trabalho qualificada beirou a extinção.
De acordo com a lei
da oferta e procura, que nem mesmo uma ditadura militar pode fazer desaparecer,
os salários acabaram por aumentar sucessivamente, em conformidade à situação.
Desse modo, o mercado interno difundiu-se com vertiginosa rapidez, mas não para
a indústria sul-coreana. Pois por motivo de sua fixação à ofensiva das exportações,
as "chaebol" haviam-se concentrado em poucos produtos, e portanto não
eram capazes de voltar-se agora satisfatoriamente à expansão do mercado interno.
Em vez disso, o acréscimo no poder de compra dos operários sul-coreanos reverteu
em benefício principalmente de produtores estrangeiros, que inundaram o crescente
mercado interno. A Coréia do Sul viu-se assim dependente de importações não apenas
nos setores de tecnologia e alimentação, mas também no de bens de consumo industriais.
O modelo quantitativo de exportação meteu-se portanto numa camisa de 11 varas.
As "chaebol" perderam a sua principal vantagem, os salários baixos,
sem que pudessem por outro lado aproveitar correspondentemente a vantagem do crescente
mercado interno. De modo concomitante, a importação de tecnologia ocidental e
japonesa encarecia, ao passo que, inversamente, os preços dos produtos finais
sul-coreanos baixavam. Isso vale sobretudo para os semicondutores, o aço e os
produtos petroquímicos, que juntos constituem quase 40% das receitas com exportações.
Assim se explica facilmente por que o déficit anual da balança comercial sul-coreana
nos anos 90 subiu de US$ 6 bilhões para US$ 12 bilhões e afinal para US$ 30 bilhões.
Como já ocorrera no começo dos anos 80, o modelo de exportação está à beira do
colapso, e a Coréia do Sul ameaça mais uma vez cair na armadilha do endividamento
externo.
As "chaebol" há muito reagiram à situação modificada
e trocaram a perspectiva de uma industrialização econômico-nacional voltada às
exportações (sob os ditames estatais) por um novo modo de existência transnacional
como "global players". Enquanto a linha de montagem puder ser agenciada
com força de trabalho não qualificada e de baixo custo, ela será transferida para
a China ou o Vietnã. Ao mesmo tempo, donos de grandes empresas compram estabelecimentos
nos Estados Unidos e na Europa, a fim de não serem barrados por medidas protecionistas
e tirarem proveito da melhor infra-estrutura européia. Já em 1994 a Daewoo iniciou
na Polônia as obras de uma enorme instalação para produzir jogos de diversão e
aparelhos domésticos. Em 1995, Lee Kun Hee, chefe da Samsung, vibrou o diapasão:
"os produtos para a Europa devem ser produzidos futuramente na Europa".
Desde então, a Samsung compra firmas européias como bananas. Em 1996 foi adquirida
uma fábrica de chips na cidade britânica de Wynward.
O Grupo LG (Goldstar)
também pretende investir US$ 2,6 bilhões num parque industrial em solo britânico.
Num processo paralelo, as "chaebol", a exemplo das empresas ocidentais
e japonesas, mergulharam de cabeça na especulação financeira global do "capitalismo-cassino".
Em 1994, nada menos que 58% da receita da Samsung couberam a serviços financeiros
e de informação. Para a economia sul-coreana, a rápida globalização das "chaebol"
significa um agravamento adicional da tensa situação socioeconômica. O forte refluxo
de capital priva o governo do controle sobre o futuro desenvolvimento. Com o desvio
dos investimentos para o exterior, as demissões em massa tornaram-se inevitáveis.
Não tardará a que o emprego total, em conformidade à tendência planetária, seja
substituído também na Coréia do Sul por um desemprego estrutural de crescimento
constante. As novas leis trabalhistas do presidente Kim Young Sam e a intransigência
do governo demonstram que a elite, como sói acontecer, deseja reagir com "mao
de ferro" à crise de crescimento. A miragem do bem-estar industrial, consenso
social e normalidade democrática desvanece.
O mais novo membro da OCDE,
após breve hesitação, parece transitar da ditadura do desenvolvimento para a ditadura
da crise.